Agosto
Boletim da FAEB
Ilustrações a partir de xilogravuras de Alexandre Guimarães.
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ASSOCIE-SE
Os caminhos percorridos na elaboração desse boletim de agosto resultou em flores. Isso significa muito em tempos nada floridos. No relato docente, a prof.ª Janice Lima apresenta a experiência Rosas pensativas: leituras intertextuais em aulas de metodologia do ensino de artes visuais, realizada na disciplina Metodologia do Ensino de Artes Visuais, dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Artes Visuais e Tecnologia da Imagem, ministrada por ela na Universidade da Amazônia. Janice nos fala sobre processos de leitura de obra de arte e de encontros intertextuais promovidos entre a pintura de Salvador Dali, Rose Meditative e os poemas Ode a Salvador Dali, do poeta andaluz Garcia Lorca e Rosa de Hiroshima, do poeta brasileiro Vinícius de Moraes. No ensaio visual, a artista-professora Ana Ruas, de Campo Grande-MS, nos invade com folhagens, flores e pendões em verdes e azuis profundos e ação educativa. Ana trabalha aos sábados com crianças em seu ateliê, fugindo de estereótipos e provocando a percepção e a imaginação. Um olhar poético sobre o mundo. Em Diálogos Internacionais, nossa entrevistada é com Marie-Françoise Chavanne, ex-professora de artes da Universidade de Versaille, na França, e ex-presidente da InSEA - International Society for Education Through Art (Associação Internacional da Educação por meio da Arte), de 1985 a 1988. Na entrevista, a professora fala do seu contexto docente, dos desafios que enfrentou enquanto presidente do InSEA, das políticas públicas atuais, de arte e cultura enquanto compromisso histórico e outras questões presentes em sua trajetória profissional. No espaço dedicado ao ConFAEB/2018, falamos das mesas previstas para o evento, como, por exemplo, a que reunirá representantes das associações de artes nas suas diferentes linguagens: ABRACE – Associação Brasileira de Artes Cênicas; ABEM – Associação Brasileira de Educação Musical; ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas e ANDA – Associação Nacional de Pesquisadores em Dança. A questão colocada para esses representantes será: como cada associação tem enfrentado as atuais políticas educacionais que excluem o ensino de arte na escola? Como de costume, o Mural da FAEB traz informações sobre eventos relacionados ao campo da arte, educação e cultura, procurando mostrar articulações e dinâmicas da nossa área em todo o país. Assim, recebamos esse agosto com flores, rosas, verdes, azuis, com a arte nas escolas e nas ruas, pois existir ainda é a melhor forma de resistir. Leda Guimarães
Boletim da FAEB Ano 1 | Número 5 | Agosto de 2018
editorial
Boletim da FAEB Ano 1 | Número 5 | Agosto o de 2018
De 6 a 9 de novembro
confaeb 2018 brasília - DF
As mesas do ConFAEB 2018 Nesta 30ª. edição do ConFAEB, nossa programação comecará com a fala da professora Silvia Paes sobre o legado de Dulcina de Morais no contexto da formação de professores e artistas em Brasília. Procuraremos em 2018 por uma ênfase significativa nos momentos coletivos propiciados pela realização as mesas temáticas nas quais esperamos um intenso debate sobre as questões atuais que tem configurados avanços e retrocessos para o ensino de artes no Brasil. Seguindo a programação, a mesa Rastros de luta e resistência pelo Ensino de Arte terá como debatedores professores que compõem a Rede de Representantes da FAEB, os quais irão apresentar reflexivamente diversas ações de enfrentamento com a BNCC, com políticas de concursos públicos, etc. Na mesa FAEB: Ações Políticas de/para enfrentamentos, resistências e recriações, a diretoria, que se despede, apresentará os caminhos percorridos em articulações da categoria visando o fortalecimento da FAEB enquanto espaço de luta, de formação e construção de identidades docentes, reconhecendo-se na diversidade arteducativa na contemporaneidade do ensino em artes visuais, música, teatro e dança. Teremos a mesa Associações Nacionais: conexões entre formação e políticas educacionais, que reunirá representantes da ABRACE – Associação Brasileira de Artes Cênicas; da ABEM – Associação Brasileira de Educação Musical; da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas e da ANDA – Associação Nacional de Pesquisadores em Dança. Serão colocadas questões sobre como cada associação tem enfrentado as atuais políticas educacionais que excluem o ensino de arte na escola, como cada associação apresenta o estado da arte e a atuação docente de sua linguagem específica indagando: Que propostas podem ser construídas colaborativamente para um fortalecimento da nossa área como um todo? Duas mesas dialogarão sobre espaços de formação. A primeira sobre Formação docente inicial, e a segunda sobre Espaços de Formação continuada, pensando nos caminhos da pós graduação e a pesquisa em arte educação. Como a pesquisa tem contribuído na (re) construção das nossas docências? Pensando na diversidade do campo, teremos a mesa Caminhos cruzados: ensino de arte em espaços formais, informais e não-formais, onde serão trazidas experiências que nos ajudem a pensar em intercâmbios, em desmanches de muros e de fronteiras entre saberes. Na mesa final, História e Memória: desvelando precedentes do ensino de arte no Brasil, teceremos conexões preciosas com uma fala sobre o legado de Anísio Teixeira com a professora Eva Vairos e outra sobre o legado de Laís Aderne com a professora Vera Margarida Lessa Catalão. Já a professora Rejane Coutinho apresentará a o legado de Mário de Andrade. Por fim, nosso encerramento com Ana Mae Barbosa, nos fazendo refletir sobre a importância da História e Memória do ensino de arte no país e na América Latina como um todo. Encerraremos o evento em um cortejo artivista, sobre o qual falaremos no próximo Boletim. Vamos a Brasília, arte educação na veia e no coração do Brasil !!!
Entrevista com Prof.ª Dr.ª Marie Françoise Chavanne Tradução de Fabiana Vidal
...na maioria das vezes, falta coragem.
Diálogos INTERNACIONAIS
Por: Sidiney Peterson Diretor de Relações Internacionais da FAEB
SP: Você pode iniciar contando-nos sobre sua formação? MF: Em 1970, eu tinha 20 anos quando entrei na Universidade de Vincennes, era a primeira universidade a oferecer uma formação artística, então eu continuei meus estudos na Licenciatura em Letras e Artes na Sorbonne. Em Vincennes, eu fazia meus estudos à noite, porque eu já era professora em um colégio durante o dia. A Universidade de Vincennes propunha uma formação bastante inovadora, permitindo abordar todos os aspectos da criação artística e nos fazendo trabalhar ao mesmo tempo a filosofia, a sociologia da arte, a história das civilizações, a antropologia, mas também, variadas práticas artísticas. Nós tivemos a oportunidade de seguir o curso no Instituto de História das Artes, nas Artes Decorativas e na Escola Superior de Belas Artes de Paris. Eu tive a chance de estar junto de personalidades de renome como Deleuze, Derrida e Teyssedre... Esta experiência universitária muito singular abriu e nutriu minha visão das artes, desenvolveu os múltiplos questionamentos e me permitiu estabelecer as ligações entre os campos do saber e as aproximações mais complexas. Após a licenciatura, eu passei no concurso para professora. Comecei a ensinar artes plásticas em 1974, inicialmente no colégio e, depois, em 1982, no Liceu Internacional de Sèvres, sucedendo Aimée Humbert, ex-presidente da International Society for Education through Art (INSEA) que estava se aposentando. Em 1990, eu fui nomeada inspetora pedagógica regional na academia de Versailles. Um outro elemento da minha formação: membro desde 1971 do Centro de Pesquisa Aplicada à Criatividade (CREAC), eu pude ser associada rapidamente aos trabalhos e pesquisas sobre a criatividade (escritura poética, jogos, criações...) e desenvolver no ensino de artes plásticas as etapas heurísticas (ousadia, acaso, imaginação, pensamento divergente, associação de ideias...). SP: Por que as artes? MF: Eu venho de uma família de artistas, sem dúvida, uma família muito independente e engajada. Com cinco anos de idade, eu tive um cavalete e com oito anos, eu decidi que ensinaria arte. Não foi escolha, foi óbvio. E sem dúvidas eu compreendi que arte era a garantia de liberdade. SP: Em 3 de novembro de 2014, em uma carta endereçada aos professores de artes plásticas, você disse adeus aos 900 professores da Academia de Versailles (França), agradecendo-lhes pelo engajamento e pela importância. Após 16 anos como professora, você foi, durante 24 anos, inspetora pedagógica em artes plásticas. Nesta carta, você apontou as aulas de artes como um espaço para o desenvolvimento da criatividade, como lugar de criação. Você pode nos falar desta experiência? MF: O ensino artístico, mais em artes plásticas do que em música, é muitas vezes incompreendido e « desconsiderado » (todos os poderes políticos estimam que as práticas musicais reúnem os jovens, enquanto que as artes plásticas permitem práticas individuais). A prática das artes plásticas oferece aos estudantes, crianças e adolescentes, a possibilidade de provar, por eles mesmos, suas capacidades criadoras, as dificuldades tanto quanto a alegria de criar, de trabalhar, de se expressar, de procurar as soluções e de superar os seus próprios limites, de abordar as obras contemporâneas tanto quanto aquelas do passado. A prática e a experiência artística permitem abordar a questão da diferença de ponto de vista, a singularidade dos outros e de apreender a dimensão simbólica e metafórica da arte. Enfim, a experiência artística oferece aos jovens as ferramentas intelectuais que favorecem o distanciamento, o surgimento de um espírito crítico, aberto, original, capaz de questionar as opiniões « comuns », em uma palavra que contribui para a emancipação. (*O inspetor na França tem por missão, supervisionar a qualidade do ensino, redigir os programas e configurar formações, garantir o sucesso dos estudantes, de valorizar as pesquisas pedagógicas e as inovações, de apoiar o ensino artístico em benefício dos jovens.) SP: A partir deste momento até hoje, as artes e o ensino de artes mudaram. Como o professor percebe o lugar da criatividade e da criação atualmente? O que mudou e como abordar os problemas de hoje? MF: As restrições e os requisitos ligados a todos os professores são multiplicados, sobrecarregados, para tentar trazer ao mesmo tempo mais conhecimentos mensuráveis e, também, mais competências. Essas exigências obstruíram os cursos e minimizam o lugar da criação, o arriscar-se à pesquisa inerente a todo processo de criação. Preocupação com eficácia, programas, rentabilidade sem dúvidas? O ensino das artes plásticas perdeu sua dimensão inovadora, por vezes, revolucionária. A aula é saturada de informações em detrimento do poder poético e da proposição. Os saberes não são « provados », mas, determinados antecipadamente. Para tornar « sério e útil », a prática como « práxis », de uma só vez, aprendizagem e reflexão, foi assimilada à produção após um aporte de conhecimentos. A importância dada à história da arte deu uma ilusão de cultura e de conhecimentos partilhados, mas reduziu o lugar da criação e da pesquisa de soluções nas classes de artes plásticas. As trocas orais que permitiam questionar coletivamente, de interrogar sobre a singularidade do trabalho de outros tornaram-se mais acadêmicos do que reflexivos. SP: Como você compreende as políticas públicas focadas no ensino de arte, como parte da formação de professores de artes na França de hoje? MF: O ensino de arte com a criação de rotas culturais torna-se competência de todos, a partir das parcerias (cidade, estruturas culturais, associações, museus etc.). O que é positivo é a visibilidade desta intenção partilhada. Mas, levada por muitos atores, a implantação não garante nem a coerência e nem a qualidade. A experiência artística é, portanto, tanto do lazer quanto da acumulação de experiências. O estudante perdeu seu estatuto de autor/criador estando mais como espectador. Se os museus se beneficiam economicamente, eu não tenho certeza de que os estudantes retirem dos seus percursos o desejo de trabalhar artisticamente, de criar. SP: Entre 1985 e 1988, você foi eleita presidente da International Society for Education through Art (INSEA). Quais foram os principais desafios e as principais realizações da sua gestão? MF: Na verdade, desde 1981, como vice-presidente da INSEA, eu me encarreguei das relações de parceria com a UNESCO para fazer reconhecer a importância da educação artística em favor das grandes questões apoiadas pela UNESCO (a Paz, o Meio Ambiente, Educação e Cultura, a diversidade das culturas, a importância da educação). Em 1982, eu realizei e entreguei à UNESCO um relatório sobre a educação artística em favor do meio ambiente, na ocasião do Colóquio em Chypre. Em 1986, apresentei à UNESCO, um projeto de Carta de Educação Artística, redigido por um comitê internacional e, então, enviado para a Unesco, aprovado e financiado, mas não realizado na ocasião! Um dos grandes projetos foi desenvolver a abertura internacional por meio dos comitês da INSEA por grandes regiões sobre o apoio a pesquisas universitárias, mas, também, para defender a diversidade de formas de ensino artístico ligadas às culturas mundiais. SP: Em um artigo intitulado A Educação da Cultura, uma questão histórica, você fala da arte, da cultura e do compromisso como questões histórias, mas também como questões necessárias ao debate no domínio da educação artística, no tempo contemporâneo. Você pode nos dizer mais sobre essas questões? MF: Eu escrevi o artigo que você menciona na ocasião da minha intervenção como perita em uma comissão do Parlamento Europeu sobre a educação e a cultura, em abril de 2017 em Aarhus, Dinamarca. Se eu falo de uma questão « histórica », é um pouco para ironizar, porque esta questão, sempre colocada por políticos, ainda não tem sido entendida como reflexo de um pensamento estagnado há anos, por ignorância! Como podemos pensar uma educação sem cultura, sem expressão? A cultura ficou, em numerosos países, à margem dos sistemas e dos objetivos educativos, como se ela fosse apenas algo de luxo (uma frivolidade, um lazer, até uma « sobremesa! ») adicionada à educação. Razões econômicas, políticas? Divisões institucionais? Ignorância das questões da arte e da cultura na construção dos valores humano? A menos que seja por medo da liberdade de pensar, de abertura do espírito, do compromisso trazido pela arte e pela cultura? A arte e a cultura não são « adicionadas » à educação, elas são « na » educação. Propondo uma « educação através da arte, pela arte, uma educação artística, estética, cultural » de numerosos países, medindo cada vez mais, as questões que faltam, mas na maioria das vezes falta coragem ! SP: E, como você compreende o trabalho em aula com essas questões? MF: Mesmo muito jovem, o estudante pode ser « autor » da sua produção e ter consciência das escolhas que ele faz, das dificuldades, das questões postas, das soluções encontradas... A aula deve ser, para cada estudante e para todos, a oportunidade de ser confrontado com uma situação que convida à reagir, a procurar, a escolher, a ousar e a colocar em prática os projetos. No final, cada um vai descobrir e olhar todas as produções, se surpreender e tentar compreender as múltiplas soluções. Mas, antes de tudo, as artes plásticas deixam um grande lugar para a poética, o sonho, o humor, o sensível, a imaginação, qualidades que devem ser sustentadas em todo o ensino, porque elas são cruciais para apreender os valores humanos. (*) Na entrevista, que foi realizada por e-mail, todos os grifos são da professora Marie-Françoise Chavanne.
Ana Ruas Campo Grande, MS
Floresta Encantada 2, 2018, 500cm x 500cm, acrílica s lona
VISUAL
ENSAIO
floresta encantada Pintura
O ateliê, um espaço não formal, funciona como o local de trabalho da artista e um laboratório pictórico de arte e educação que procura desconstruir sistemas e combater estereótipos. No ateliê, paredes, muros, lonas e os próprios pincéis da artista são compartilhados, sem distinção ou hierarquia com aqueles que ali vivenciam processos em artes visuais.
Floresta Encantada I , 2017, 500cm x 500cm, acrílica s lona
RELATO DE EXPERIÊNCIA Prof.ª Janice Shirley Souza Lima ROSAS PENSATIVAS: LEITURAS INTERTEXTUAIS EM AULAS DE METODOLOGIA DO ENSINO DE ARTES VISUAIS
Métodos de leitura de obras de arte era um dos tópicos da disciplina Metodologia do Ensino de Artes Visuais do curso de licenciatura e bacharelado em Artes Visuais e Tecnologia da Imagem, que ministrei até o ano de 2014 na Universidade da Amazônia. A proposta para esse tópico consistia no estudo de modelos, tais como a classificação dos estágios de compreensão estética[i] e o sistema de interpretação Image Watching[ii], escolha de obras de arte pelos alunos e experimentação de leituras das imagens ou das próprias obras quando estas se encontravam expostas em algum museu ou galeria de Belém/PA, no período dessas aulas. Cada aluno seria instigado a portar-se como leitor/espectador emancipado[iii], apropriando-se das obras e exercitando o olhar para destecer as tramas produzidas por seus autores, na perscrutação de suas intenções e dos discursos que as encerram, não apenas em busca de sentidos e significados, mas para dar passagem a novas significações. Na última vez que ministrei essa disciplina, para iniciar esses processos de leitura, pedi aos alunos que fechassem os olhos, escureci a sala e projetei a imagem da pintura de Salvador Dali, “Rose Meditative”[iv] (Imagem 1). A intenção, nesse primeiro momento, era explorar a percepção estética de cada aluno, permitindo que a imagem mobilizasse seus pensamentos para mapear seus efeitos sinestésicos. Ao abrirem os olhos e se depararem com a imagem de “Rose Meditative”, interjeições de surpresa e indagações iniciaram o diálogo. “Que rosa é essa”! “Essa gota é orvalho ou uma lágrima”? “Por que o pintor teria colocado a rosa suspensa”? “Há um silêncio perturbador nessa imagem”! “A cor quente e vibrante da rosa contrasta com o fundo de cores esmaecidas”! “Como será que o pintor produziu esses tons e texturas que nos remete a uma aridez”? Sensação de um dia seco. Essa rosa remete à paixão. Propus, então, que construíssemos uma espécie de mapa com essas percepções, que seriam ao mesmo tempo pistas iniciais para a busca das respostas. Em seguida, pedi para descreverem a imagem coletivamente. Cada um tentaria seguir a linha de pensamento do que falara anteriormente. E, assim, a descrição ganhou uma forma, posteriormente editada: Na imagem, a imensa rosa de vermelho vibrante flutua no espaço. Centralizada, ela divide o quadro simetricamente. O que se vê no plano superior e ao fundo é o céu azul com uma nuvem, que vai se tornando plúmbeo à medida que vamos descendo o olhar e, mais em baixo, percebemos o amarelado das réstias de sol dobrando o horizonte. No plano inferior, observa-se um quase deserto, não fosse pela dupla de personagens de proporção bem pequena em relação à imensa rosa que paira sobre suas cabeças. A terra de tons amarronzados onde pisam é árida. Uma gota translúcida repousa sobre a rosa. Então, solicitei que trouxessem outras imagens e textos para a aula seguinte, com os quais pudessem estabelecer relações com “Rose Meditative”. O nosso novo encontro foi marcado pela apresentação de cada aluno sobre o material selecionado. Um aluno pesquisou a historiografia de Salvador Dali e expôs informações, situando-o na história da arte como adepto ao Surrealismo, observando que o pintor exercitava associações incomuns em seus trabalhos na busca por uma forma espontânea de conhecimento irracional e, desta maneira, estabeleceu relações entre a obra, seu autor e o Surrealismo. Na continuidade do exercício de intertextualidade[v], o poema “Ode a Salvador Dali”[vi] de García Lorca, foi defendido por um grupo de alunos que via em “Rose Meditative” uma retribuição à declaração de amor que Lorca teria feito a Dali. Mas também a rosa do jardim onde vives Sempre a rosa, sempre, norte e sul de nós! Tranquila e concentrada como uma estátua cega, ignorante de esforços soterrados que causa. Rosa pura que limpa de artifícios e esboços e nos abre as asas tênues do sorriso. (Mariposa pregada que medita seu vôo). Rosa do equilíbrio sem dores buscadas. Sempre a rosa! Trecho de Ode a Salvador Dali, de Garcia Lorca. Recorreram à informação de que os dois mantinham estreita amizade e mútua admiração. Discutiram sobre as especulações acerca de uma possível relação mais íntima, uma paixão, uma relação homossexual entre os dois, embora tivessem encontrado registros de que Salvador Dali o negasse com veemência. O fato é que o poeta andaluz e o pintor catalão mantiveram uma farta correspondência em que se observam trechos insinuantes, pistas para tais conjecturas. Questionaram, ainda, se não seria o contrário, se nessa poesia estaria Lorca a retribuir a suposta homenagem de Dali em “Rose Meditative”. Uma aluna objetou não acreditar nessa possibilidade, pois o poema faz também referência a outras obras de Dali, e não especificamente àquela, tratando-se de uma homenagem ao pintor, sim, mas não exclusivamente de uma troca de carinho envolvendo “Rose Meditative” e “Ode a Salvador Dali”. Entretanto, acrescentou que sua objeção não excluía a possibilidade daquela imensa rosa vermelha suspensa no ar representar um amor platônico e aquela gota uma lágrima fortuita causada por esse sentimento. O poema “A Rosa de Hiroshima”[vii] de Vinícius de Moraes e a imagem da bomba atômica veiculada massivamente no mundo todo em diversos jornais e revistas após aquele ataque nuclear foram escolhidos pelo grupo de alunos que defendia a possibilidade de “Rose Meditative” tratar-se de uma referência às explosões das bombas de Hiroshima e Nagasaki. A rosa de Hiroshima, criada pelo poeta Vinícius de Moraes, é uma metáfora dos efeitos da explosão da bomba atômica deflagrada naquela cidade japonesa em 06 de agosto de 1945. O poeta descreve o que resultou da insanidade desse desfecho desumano provocado pela segunda guerra mundial, e pede para não esquecermos. No poema, Vinícius nos convoca a lembrar de uma rosa específica, uma rosa que é radioativa, que é rosa e, ao mesmo tempo, antirrosa, porque atômica e sua consequência devastadora. Os oito últimos versos descrevem a imagem da imensa nuvem radioativa de gases e fumaça formada no ataque nuclear e suas consequências. Quanto à imagem da nuvem de gases e fumaça que se formou após a explosão da bomba (imagem 2), os alunos a selecionaram por perceberem uma semelhança formal dessa nuvem de gases e fumaça com a rosa suspensa de Dali e com a descrição metafórica da antirrosa atômica dos versos do poeta, reconheceram iconicidade entre os textos visuais e o texto poesia. E daí surgiram outras perguntas: “Certamente Vinícius viu a imagem da nuvem gasosa, mas será que o poeta viu também “Rose Meditative” de Dali”? “Qual das duas imagens teria influenciado a criação do poema”? “Ou a influência viria das duas”? “Teriam Dali e Vinícius se apropriado, além da imagem de uma rosa, da imagem da nuvem de gases e fumaça produzidos pela bomba em Hiroshima para criarem seus textos”? O pintor catalão viveu numa época em que um mundo acabara de sobreviver à segunda guerra mundial, no mesmo período em que ocorreram as duas maiores revoluções científicas do século XX, a Teoria da Relatividade, de Einstein, e a Mecânica Quântica, de Planck. Embora Dali não tivesse formação científica acadêmica, interessava-se pelos assuntos científicos, estudando, escrevendo artigos e utilizando tais conhecimentos em sua pintura. O período em que houve a explosão atômica em Hiroshima coincide com o início da abordagem desse tema em sua obra, corroborando com a crença de que “Rose Meditative”, produzida em 1958, é uma revisita ao assunto. Entretanto, Vinícius pode até ter visto essa obra do pintor espanhol, mas depois de ter escrito “A Rosa de Hiroshima”, uma vez que, pelos registros encontrados, o seu poema é de 1954. Nesse diálogo, a turma chegava à outra conclusão provisória, de que, tanto na pintura de Dali como no poema de Vinícius, a rosa é uma metáfora daquele “cogumelo” de fumaça e gases que se formou após as explosões das bombas em Hiroshima e Nagasaki. Na pintura, representa a condição humana exposta à própria irracionalidade, por isso, medita e chora. No poema, as consequências da rosa radioativa nefasta são as feridas, a esterilidade, a mudez, a escuridão. Assim, ao destecer os textos (pintura, fotografia e poemas) e misturá-los para compor um novo texto, as narrativas coletivas sobre essa rosa pensativa[viii], as teias de significados e significações se construíram. Seja aquela gota translúcida representação de uma lágrima apaixonada do pintor pelo escritor ou uma lágrima de compaixão pela vulnerabilidade humana, o fato é que ao final daquela aula “Rose Meditative” continuava a nos olhar enigmaticamente. [i] O estudo da classificação dos estágios de compreensão estética sistematizado por Abigail Houen, iniciou com a leitura do texto de Rossi (1999). ROSSI, Maria Helena Wagner. A compreensão do desenvolvimento estético. In: PILLAR, Analice Dutra. (Org.) A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 1999, p.p. 23-35. [ii] O texto “Ensinando crítica nos museus” de Ott (1997) foi bastante esclarecedor sobre o sistema Image Watching. OTT, Robert William. Ensinando crítica nos museus. In: BARBOSA, Ana Mae (Org.). Arte–Educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997, p.p. 111-139. [iii] Segundo Rancière (2012, p. 21), o poder de associar e dissociar livremente investe o espectador de emancipação. “Ser espectador não é a condição passiva que devemos converter em atividade. É nossa situação normal”. RANCIÈRE. Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Martins Fontes, 2012. [iv] “Rose Meditative” é um óleo sobre cartón piedra, dimensões 36x28cm, pintado pelo artista espanhol Salvador Dalí (1904 – 1989), em 1958. A obra pertence a uma coleção privada. [v] A proposta do exercício de intertextualidade surgiu no estudo do texto “Leitura e Releitura” de Pillar (1999). PILLAR, Analice Dutra. Leitura e Releitura. In: PILLAR, Analice Dutra. (Org.) A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 1999, p.p. 9-21. [vi] LORCA, Federico Garcia. Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2011. [vii] A Rosa de Hiroshima, poema de Vinícius de Moraes (1913 – 1980), foi publicada no livro Antologia poética em 1954. Na década de 1970 o poema foi musicado por Gerson Conrad e gravado pelo grupo musical “Secos e Molhados”. MORAES, Vinícius de. Antologia Poética. 21. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982. [viii] O termo rosa pensativa foi inspirado na teoria da pensatividade da imagem. Para Rancière (2012, p. 103), imagem pensativa é “[...] uma imagem que encerra pensamento não pensado, pensamento não atribuível à intenção de quem a cria e que produz efeito sobre quem a vê sem que este a ligue a um objeto determinado”.
Rose Meditative, Salvador Dali, 1958.
A Rosa de Hiroshima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas, oh, não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A antirrosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada Vinícius de Moraes
mural da faeb
III Fórum dos Museus Indígenas no Ceará 13 a 16 de setembro local: Aldeia Jucás. Monsenhor Tabosa, CE Leia mais aqui.
4° Seminário Internacional de Educação do Inhotim: Entre Sujeitos e Coletividades. 13 a 15 de setembro Convidados do Brasil e do mundo vão apresentar experiências bem-sucedidas de transformação de sonhos individuais em ações coletivas e nos inspirar a criar alternativas para construir um mundo mais plural, colaborativo e sensível. Local: Inhotim Brumadinho, MG Leia mais aqui.
Ciclo de Conferências em Artes e Educação: A Lei 11.645/08- Perspectivas indígenas e afro-brasileiras 13 de agosto a 06 de dezembro Local: Auditório Lupe Cotrim, ECA/USP Leia mais aqui.
ficha técnica
Vice Presidente: Ana Paula Abrahamian de Souza – UFRPE/PE Diretoria de Relações Institucionais: Verônica Devens Costa – SEME-PMV/ES Diretoria de Articulação Política: Fabiana Souto Lima Vidal – UFPE/PE Diretoria Financeira: Luzirene do Rego Leite – SEEDF/FADM Diretoria de Relações Internacionais: Sidiney Peterson Ferreira de Lima
Prof.ª Dr.ª Leda Guimarães Presidente da FAEB EDITORES Prof. Dr. Alexandre Guimarães Instituto Federal de Goiás - IFG Prof.ª Dr.ª Eliane Aparecida Andreoli Faculdade Anhanguera de Taboão da Serra - SP Prof.ª Ma. Rosa Amélia Barbosa Instituto Federal do Paraná - IFPR Prof. Me. Sidiney Peterson Ferreira de Lima Universidade do Estado de São Paulo - UNESP Projeto gráfico Alexandre Guimarães Editoração eletrônica e diagramação Bárbara Stela Oliveira Revisão de texto Agatha Couto Ilustrações Recortes digitais sobre xilogravuras de Alexandre Guimarães . Para contribuições e sugestões, escrever para: boletim.faeb@gmail.com
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